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sexta-feira, agosto 28, 2009

"Brincadeiras de Verão"

Miguel Sousa Tavares, jornal Expresso, 28 Agosto 2009

Cabe na cabeça de alguém que o Governo tenha instalado uma escuta no Palácio de Belém para descobrir, por antecipação, o que pensam o Presidente e os seus antecessores? Não: na minha, pelo menos, não cabe. Mas, seja isto uma irresponsável brincadeira de Verão parida no Palácio de Belém ou uma tenebrosa medida de um governo que, então, se teria transformado num caso de polícia, não é admissível a forma como esta mirabolante história nasceu e cresceu. Um qualquer anónimo assessor de Cavaco Silva, com ou sem o seu conhecimento prévio, não pode lançar a bomba atómica e esconder depois a mão. E o Presidente não pode, a seguir, remeter-se ao silêncio, embrenhado na leitura algarvia do "jipe de diplomas" do Governo que tem para promulgar e de que, tão levianamente também, se veio queixar em público. Há coisas que são demasiado graves para a saúde do regime democrático para poderem ser tratadas com esta desfaçatez de miúdos a brincar à política. Ou Cavaco tem provas, ou muito fundadas suspeitas daquilo que o seu assessor lançou ao vento, ou não tem. Se tem, deve tratar o assunto de outra forma e com a gravidade que ele justifica: um Presidente que tem razões sérias para acreditar que está a ser escutado e vigiado pelo Governo, não pode ficar-se com bocas anónimas lançadas para os jornais. Se não tem provas e se não teve forma de impedir o que disse o seu assessor, deve desmenti-lo publicamente, identificá-lo e demiti-lo. Urgentemente.

Também não sei (e nunca saberemos, claro), se são verdadeiras ou não as acusações de que assessores de Cavaco Silva participaram na elaboração do misterioso programa eleitoral do PSD. E como não sabemos, vale a mesma regra: é mentira, até prova em contrário (sendo que esta é mais difícil de fazer).

Agora, uma coisa há que é verdade: que Cavaco Silva tem o Palácio cheio de assessores e conselheiros que são militantes ou membros do PSD. Está no seu direito, mas, fazendo-o, sujeita-se às leituras políticas e consequências que daí se podem retirar. Há mesmo um membro do seu staff político que é candidato pelo PSD nestas eleições legislativas. E eu acho que ele lhe devia agradecer os serviços até aqui prestados e dispensá-lo: o Presidente da República, que tem uma obrigação constitucional clara de ser equidistante e independente da luta partidária, não pode albergar dois assessores que são simultaneamente candidatos a deputados pelo maior partido da oposição. Não o fazendo e lançando agora esta guerrilha das supostas escutas, Cavaco vai acentuando cada vez mais a ideia de que não lhe é indiferente o desenrolar do processo eleitoral que aí vem e o seu desfecho. Eu sei que foi José Sócrates que lhe deu o pretexto e a desculpa, com a estúpida guerra do Estatuto dos Açores - uma questão menor e inútil, onde Cavaco tinha toda a razão mas onde Sócrates resolveu desafiá-lo gratuitamente. Mas isso não dá ao Presidente a liberdade de movimentos que ele não tem na querela política que se avizinha.

Belém acaba de dar um passo em falso. Um gigantesco passo em falso. É provável que tenha consequências num futuro próximo, porque há coisas com que não se brinca. E, com tantas outras coisas bem mais importantes para discutir e decidir em Outubro, o país dispensava bem estes acessos de protagonismo a despropósito.

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